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TRAMAS DO CUIDADO

Tramas do Cuidado reúne pinturas que investigam o trabalho cotidiano como um território onde se cruzam memória, violência e resistência. Redes, peixes, bacias, tecidos e gestos repetitivos deslocam atividades frequentemente invisibilizadas para o centro da imagem, revelando como o cuidado sustenta tanto a vida quanto as estruturas sociais que historicamente o desvalorizam.

As obras aproximam práticas domésticas, pesqueiras e comunitárias, sugerindo que lavar, remendar, costurar, desembaraçar redes, limpar um espaço ou preparar o alimento são gestos que sustentam a vida e, justamente por se repetirem todos os dias, quase nunca permanecem na memória. Gestos que carregam dimensões políticas e afetivas. 

Assim como os corpos femininos foram historicamente tratados como matéria de trabalho, cuidado e reprodução, a água também foi reduzida a um recurso disponível para extração e consumo. Ambos são frequentemente concebidos como fontes inesgotáveis, como se sua capacidade de sustentar a vida pudesse ser continuamente explorada sem consequências. Interessa-me observar como essa lógica de apropriação inscreve marcas tanto nos corpos quanto nas paisagens, revelando relações de poder que transformam aquilo que torna a vida possível em mercadoria.

Ao reunir esses fragmentos do cotidiano, a série propõe uma reflexão sobre aquilo que mantém o mundo funcionando, mas raramente é reconhecido. Parto dessa invisibilidade para investigar o que aprendemos a considerar comum demais para ser visto: o trabalho do cuidado e sua profunda ligação com a água, ambos indispensáveis à manutenção da vida e, justamente por isso, frequentemente tratados como recursos sempre disponíveis. Interessa-me pensar como essa lógica de naturalização aproxima a exploração do corpo feminino e da natureza, revelando uma mesma estrutura que transforma cuidado e água em bens inesgotáveis, capazes de sustentar continuamente a vida sem que seus limites, desgastes e violências sejam reconhecidos.

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