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MANUAL DA CONSTRUÇÃO DOS CORPOS 

Antes de voltar meu olhar para a água como território de memória e conflito, minha pesquisa se concentrava na maneira como o corpo feminino é produzido socialmente. Reunindo trabalhos realizados em diferentes momentos desse percurso, esta série interroga não apenas as imagens da mulher, mas os sistemas que as tornam possíveis: a família, a religião, a sexualidade, a educação, a arte, o consumo e o trabalho doméstico. 

Ao aproximar objetos cotidianos, naturezas-mortas, pinturas, instalações e pequenos gestos, as obras revelam que nenhuma ideia de feminilidade surge espontaneamente, mas é aprendida, repetida, corrigida e preservada ao longo das gerações. Nesse contexto, esses elementos tornam-se dispositivos que ensinam modos de existir.

Hoje reconheço esses trabalhos como o ponto de partida da pesquisa que continuo desenvolvendo. Antes de perguntar o que acontece aos corpos aprendem a ocupar o mundo. A água ainda não havia se tornado o centro da investigação, mas a água começava a emergir como elemento da pesquisa, ainda de maneira sutil. Na sequência de pinturas em que uma mulher permanece dentro de uma geladeira e sua imagem desaparece gradualmente sob camadas de branco, o congelamento torna-se metáfora da imobilização histórica do corpo feminino. O gelo, água privada de fluxo, inaugura uma questão que mais tarde se tornaria central em meu trabalho: de que maneira os estados da água podem refletir as formas como uma sociedade permite ou impede que determinados corpos vivam, circulem e se transformem. Quem decide quais vidas merecem cuidado e quais podem ser descartadas ?

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